Hiperaldosteronismo Primário: Guia Completo e Acessível para Pacientes

Dr Eder Nisi Ilario

O que é o Hiperaldosteronismo Primário?

O hiperaldosteronismo primário (HAP) é uma doença hormonal caracterizada pela produção excessiva de aldosterona pelas glândulas adrenais. Essa produção exagerada leva ao aumento da pressão arterial e à queda do potássio no sangue.

Apesar de pouco conhecido, o HAP é a causa tratável mais comum de hipertensão secundária , e ganhou importância nas diretrizes da Sociedade de Endocrinologia por ser uma condição frequentemente curável — especialmente quando diagnosticada precocemente.

Este artigo foi escrito de forma detalhada, porém acessível, com base nas recomendações da Endocrine Society Clinical Practice Guideline e em consensos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) .

O que são as glândulas adrenais?

As adrenais , também chamadas de suprarrenais, são pequenas glândulas localizadas acima dos rins. Apesar do tamanho reduzido, cada adrenal produz hormônios essenciais para a vida. O funcionamento adequado das glândulas adrenais é fundamental para o equilíbrio hormonal do organismo e a manutenção de funções vitais, como a regulação da pressão arterial e a resposta a condições de estresse.

Córtex Adrenal (Camada Externa): dividido em três zonas:

1) Zona Glomerulosa

  • Produz aldosterona , que regula sal, água e potássio.
  • É a camada envolvida no hiperaldosteronismo primário.

2) Zona Fasciculada

  • Produz cortisol , hormônio do metabolismo e do stress.

3) Zona Reticular

  • Produz androgênios , hormônios relacionados a características sexuais.

Medula Adrenal (Camada Interna): Produz adrenalina e noradrenalina , responsáveis por respostas ao stress agudo.

O que é a aldosterona e por que ela causa pressão alta?

A aldosterona faz o rim reter sal e água , ao mesmo tempo em que elimina potássio pelo rim.

Quando o nível hormonal de aldosterona está alta demais:

  • Aumenta volume de sangue
  • Eleva a pressão arterial
  • Reduz o nível do potássio no sangue (hipocalemia)
  • Danifica rins, coração e vasos sanguíneos
  • Torna a pressão resistente ao tratamento comum

As diretrizes reforçam que identificar essa doença cedo reduz complicações cardíacas e renais.

Causas do hiperaldosteronismo primário

1. Adenoma produtor de aldosterona (APA)

  • Tumor benigno na adrenal
  • Principal causa curável por cirurgia

2. Hiperplasia adrenal bilateral

  • Ambas as adrenais produzem aldosterona em excesso
  • Tratamento geralmente clínico

3. Outras causas raras

  • Alterações genéticas
  • Tumores malignos (extremamente raros)

Sintomas mais comuns

Muitos pacientes convivem anos com a doença sem saber, pois os sintomas são inespecíficos:

  • Pressão alta resistente
  • Necessidade de vários remédios para pressão
  • Câimbras
  • Fraqueza muscular
  • Formigamentos
  • Sede intensa
  • Urinar várias vezes ao dia
  • Potássio baixo (hipocalemia)
  • Dor de cabeça frequente
  • Fadiga persistente

Quem deve ser investigado?

As diretrizes recomendam triagem para HAP nos seguintes casos:

✔ Hipertensão resistente (3 ou mais medicamentos)

✔ Hipertensão grave (≥150/100 mmHg)

✔ Hipertensão + hipocalemia (potassio baixo)

✔ Nódulo encontrado em adrenal (incidentaloma)

✔ Apneia obstrutiva do sono com hipertensão

✔ Histórico familiar de hipertensão precoce ou AVC antes dos 40 anos

✔ Parentes de primeiro grau de pacientes com HAP

Se o paciente se encaixa em qualquer um desses critérios, as sociedades de endocrinologia recomendam fortemente a investigação.

Como é feito o diagnóstico 

1. Triagem: Relação Aldosterona/Renina (ARR)

É o exame inicial recomendado pelas diretrizes. Ele avalia se a aldosterona está alta e a renina suprimida (baixa).

Recomendações técnicas (diretrizes):

  • Corrigir potássio antes do teste
  • Ingestão normal de sal
  • Verificar posição do paciente (sentado por 5–15 minutos)
  • Avaliar necessidade de suspender medicamentos que interferem

Medicamentos que interferem e devem ser ajustados:

  • Espironolactona / eplerenona
  • Amilorida
  • Diuréticos
  • Inibidores de ECA e BRA
  • Betabloqueadores
  • Clonidina

Antihipertensivos mais adequados durante o exame:

  • Verapamil de ação lenta
  • Hidralazina
  • Prazosina / doxazosina

Se a ARR estiver elevada com aldosterona ≥10–15 ng/dL, as diretrizes recomendam seguir para testes confirmatórios.

2. Testes confirmatórios (Endocrine Society)

Um dos testes abaixo é suficiente:

A) Teste de supressão salina (infusão de 2L em 4h)

  • Aldosterona final >10 ng/dL → confirma HAP

B) Sobrecarga oral de sal (24h)

  • Indicada quando infusão não é possível.

C) Teste com captopril

  • Aldosterona não suprime adequadamente.

D) Teste com fludrocortisona (mais sensível)

  • Usado em centros especializados.

3. Determinar se a produção é unilateral ou bilateral

Depois de confirmar o diagnóstico, é preciso identificar qual adrenal está produzindo o hormônio em excesso.

Tomografia de abdome superior

  • Importante para planejamento cirúrgico e identificação de adenoma unilateral
  • Quando tem hiperplasia bilateral, ela não determina o lado produtor

Cateterismo de Veias Adrenais (AVS) - padrão-ouro, mas exame invasivo

Permite:

  • Comparar produção hormonal de cada adrenal
  • Definir se a causa é unilateral (cirúrgica) ou bilateral (tratamento clínico), principalmente quando tem suspeita de hiperplasia
  • Pode ser dispensado em alguns casos:
  • Pacientes <35 anos
  • Com nódulo claro unilateral na TC (adenoma)
  • Com aldosterona muito elevada

Tratamento segundo as diretrizes da Endocrine Society

1. Doença unilateral — cirurgia (adrenalectomia)

A adrenalectomia é o tratamento preferido quando um tumor unilateral é responsável pelo quadro.

Via recomendada:

  • Cirurgia Robótica (mais precisa, menos traumática e segura)

Benefícios esperados da cirurgia

  • Normalização do potássio em quase 100%
  • Cura da hipertensão em 40–70%
  • Melhora significativa do controle da pressão em >90%
  • Redução de risco cardiovascular
  • Proteção renal a longo prazo

2. Doença bilateral — tratamento clínico

Se a causa for hiperplasia bilateral:

  • Espironolactona é primeira escolha
  • Eplerenona é alternativa com menos efeitos colaterais

Cirurgia Robótica da Adrenal — Por que é tão segura e precisa?

A cirurgia robótica tem se destacado pela precisão e segurança, principalmente em áreas anatômicas profundas como a adrenal.

Vantagens para o paciente:

  • Visão 3D ampliada e maior precisão
  • Menor risco de sangramento
  • Menor trauma tecidual
  • Recuperação mais rápida
  • Menos dor
  • Cicatrizes menores
  • Alta em média após 24 horas na maioria dos casos

Cirurgião com grande experiência em cirurgia robótica adotam essa técnica como padrão para adrenalectomia de forma altamente eficaz e segura.

Prognóstico segundo as diretrizes

Sem tratamento, pacientes com HAP têm maior risco de:

  • AVC
  • Infarto
  • Arritmias (como fibrilação atrial)
  • Doença renal crônica
  • Mortalidade cardiovascular

Quando tratado adequadamente:

  • Riscos cardiovasculares reduzem drasticamente
  • Controle da pressão melhora significativamente
  • Em causas unilaterais, a cirurgia pode curar a doença
  • Em causas bilaterais, o tratamento clínico controla bem o quadro

FAQs sobre Hiperaldosteronismo Primário

Quais são os principais sintomas do hiperaldosteronismo primário?

Sintomas comuns incluem hipertensão resistente, fraqueza muscular, fadiga e baixos níveis de potássio no sangue.

Como o hiperaldosteronismo primário é diagnosticado?

A condição é diagnosticada por meio da relação aldosterona-renina, testes de supressão de aldosterona e exames de imagem.

A cirurgia robótica é segura para tratar tumores adrenais?

Sim, a cirurgia robótica é uma técnica segura e eficaz, oferecendo precisão e rapidez na recuperação.

Quais médicos tratam o hiperaldosteronismo primário?

Endocrinologistas e urologistas geralmente estão envolvidos no tratamento, especialmente se a cirurgia for necessária.

Medicamentos são uma opção de tratamento?

Sim, em casos de hiperplasia adrenal bilateral, medicamentos podem ser usados para controlar a condição.

A doença pode ser hereditária?

Existem casos familiares, então histórico familiar deve ser considerado durante o diagnóstico.

Vou precisar de hormônios se retirar uma adrenal?

Não. A adrenal do lado oposto assume toda a função.

A cirurgia cura a hipertensão?

Pode curar totalmente ou reduzir bastante o número de medicamentos.

Quanto tempo dura a recuperação?

Em média 7dias para atividades habituais.

O potássio volta ao normal?

Sim — praticamente 100% dos casos que tem doença unilateral.

Conclusão

O hiperaldosteronismo primário é uma condição tratável e potencialmente curável , especialmente quando identificado precocemente.

Com o avanço da cirurgia robótica , a adrenalectomia tornou-se um procedimento extremamente seguro, preciso e com recuperação rápida — oferecendo ao paciente uma excelente chance de controle ou cura da pressão arterial e preservação da saúde cardiovascular a longo prazo.

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