Hiperaldosteronismo primário: quando a cirurgia pode curar a hipertensão
Dr. Eder Nisi Ilario
Dr. Eder Nisi Ilario
Urologista
Uro-Oncologia • Cirurgia Robótica
CRM 150.653 | RQE 66.503
Formado pela Faculdade de Medicina da USP, o Dr. Eder Nisi Ilario é doutor em Urologia, atuando em uro-oncologia e cirurgia robótica. Dedica-se ao diagnóstico e tratamento dos cânceres de próstata, rim, bexiga e tumores da suprarrenal, incluindo casos de alta complexidade. Sua prática é baseada em avaliação individualizada, planejamento cirúrgico criterioso e acompanhamento especializado. É coordenador do fellowship em Uro-Oncologia e Cirurgia Robótica do IDOR.
| Entenda como o hiperaldosteronismo primário pode causar hipertensão de difícil controle, quando suspeitar dessa alteração hormonal e em quais situações a cirurgia da suprarrenal pode melhorar significativamente ou até curar a pressão alta. |
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Introdução
O hiperaldosteronismo primário (HAP) é uma doença hormonal causada pela produção excessiva de aldosterona por uma ou pelas duas glândulas suprarrenais. É considerado uma das causas mais comuns de hipertensão secundária, com estudos estimando prevalência entre 5% e 14% entre pacientes hipertensos. Em casos de hipertensão resistente ao tratamento, essa frequência pode ser ainda maior.
O ponto mais importante é que, em muitos pacientes, essa condição pode ser tratada com cirurgia. Nos casos unilaterais, uma parcela significativa dos pacientes apresenta normalização da pressão arterial após a adrenalectomia, e mais de 90% evoluem com melhora importante do controle da hipertensão e redução dos medicamentos.
Na prática, muitos pacientes convivem durante anos com pressão alta difícil de controlar sem saber que existe uma causa hormonal potencialmente curável por trás do quadro. O diagnóstico correto e a indicação adequada do tratamento podem mudar completamente esse cenário.
Principais informações sobre hiperaldosteronismo primário:
- O hiperaldosteronismo primário é uma das causas mais comuns de hipertensão secundária, presente em cerca de 5% a 14% dos pacientes hipertensos
- Pode estar presente em pacientes com pressão alta de difícil controle, mesmo com uso de vários medicamentos
- Muitas vezes está associado a potássio baixo, mas níveis normais de potássio não excluem o diagnóstico
- O diagnóstico é feito por exames hormonais específicos, iniciando pela relação aldosterona/renina
- É fundamental identificar se a produção hormonal é unilateral ou bilateral antes de definir o tratamento
- Nos casos unilaterais, a cirurgia pode levar à normalização da pressão arterial em uma parcela significativa dos pacientes
- O potássio costuma normalizar rapidamente após a cirurgia, geralmente entre 24 e 72 horas
- A maioria dos pacientes apresenta melhora importante do controle da pressão arterial, com redução ou até suspensão dos medicamentos.
O que é hiperaldosteronismo primário e por que ele causa hipertensão
O hiperaldosteronismo primário é uma doença hormonal em que uma das glândulas suprarrenais passa a produzir aldosterona em excesso. Esse hormônio é responsável por regular o equilíbrio de sal, água e potássio no organismo.
Quando a aldosterona está elevada, ocorre retenção de sal e água pelos rins, aumentando o volume de sangue circulante. Como consequência, a pressão arterial se eleva de forma persistente. Ao mesmo tempo, o organismo passa a eliminar mais potássio, o que pode levar à hipocalemia. No entanto, nem todos os pacientes apresentam potássio baixo, o que pode dificultar o reconhecimento da doença.
O resultado é uma hipertensão que muitas vezes é mais difícil de controlar, podendo exigir vários medicamentos e, ainda assim, permanecer elevada.
Quando suspeitar da doença?
O hiperaldosteronismo primário é frequentemente subdiagnosticado porque seus sintomas podem se confundir com hipertensão comum. Alguns sinais aumentam significativamente a suspeita clínica:
| Situação | Quando suspeitar |
|---|---|
| Pressão difícil de controlar | Uso de 3 ou mais remédios para pressão arterial |
| Potássio baixo | Hipertensão + hipocalemia |
| Pressão muito alta | >150/100 mmHg |
| Nódulo adrenal | Investigar produção hormonal |
Como o hiperaldosteronismo pode se manifestar de forma semelhante à hipertensão comum, muitos casos não são reconhecidos precocemente. Entre os principais alertas estão dificuldade para controlar a pressão, necessidade de múltiplos medicamentos, potássio baixo no sangue e presença de nódulo na suprarrenal.
Outros sinais que merecem atenção incluem hipertensão em idade mais jovem, histórico familiar de hipertensão precoce ou AVC e apneia do sono associada à hipertensão.
Reconhecer esses sinais é fundamental, pois o hiperaldosteronismo está entre as principais causas de hipertensão potencialmente curável quando diagnosticado corretamente.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico do hiperaldosteronismo primário é realizado em etapas bem definidas, com o objetivo de confirmar o excesso de produção de aldosterona e orientar a melhor forma de tratamento.
Exame inicial: relação aldosterona/renina (ARR)
O primeiro passo é a dosagem de aldosterona e renina no sangue, com cálculo da relação aldosterona/renina (ARR). Esse exame avalia se a aldosterona está elevada e se a renina está suprimida. Quando esse padrão está presente, há forte suspeita de hiperaldosteronismo primário.
Para garantir resultado confiável, alguns cuidados são importantes: corrigir o potássio antes da coleta, manter ingestão adequada de sal, ajustar medicamentos que podem interferir no exame e realizar a coleta com o paciente em posição adequada.
Testes confirmatórios
Quando a triagem é positiva, o próximo passo é confirmar o diagnóstico com testes específicos que avaliam se a aldosterona permanece elevada mesmo em condições em que o organismo deveria reduzi-la. Entre os principais métodos estão teste de supressão salina, sobrecarga oral de sal, teste com captopril e teste com fludrocortisona em centros especializados.
Avaliação por imagem (tomografia)
Após confirmar o hiperaldosteronismo, realiza-se tomografia das suprarrenais para avaliar presença de nódulos, tamanho e características da lesão. Esse exame é fundamental para o planejamento, mas tem uma limitação importante: nem sempre consegue definir sozinho qual adrenal está produzindo o hormônio.
Como saber se a doença é unilateral ou bilateral?
Após confirmar o diagnóstico de hiperaldosteronismo primário, o passo mais importante é identificar de onde vem o excesso de aldosterona. Essa definição muda completamente o tratamento:
- Doença unilateral (uma adrenal) → pode ser tratada com cirurgia, com chance real de cura
- Doença bilateral (duas adrenais) → tratamento clínico com medicamentos
A tomografia é o primeiro exame utilizado nessa etapa, mas tem limitações: pequenos nódulos podem não aparecer e alterações na imagem nem sempre correspondem à produção hormonal real.
Cateterismo de veias adrenais (AVS)
O exame mais preciso para essa avaliação é o cateterismo de veias adrenais (AVS). Ele consiste na coleta de sangue diretamente das veias de cada adrenal para comparar a produção de aldosterona entre os dois lados. Com isso, é possível identificar com precisão qual adrenal está hiperfuncionante e se a produção é unilateral ou bilateral. É considerado o padrão-ouro para decisão cirúrgica.
Em alguns casos específicos, o AVS pode ser dispensado: pacientes mais jovens com nódulo claramente unilateral na tomografia e alterações hormonais típicas e bem definidas.
A decisão final não é baseada em um único exame, mas na integração de dados clínicos, exames hormonais, tomografia e, quando necessário, AVS. Identificar corretamente se a doença é unilateral é o que permite indicar cirurgia com segurança e com potencial real de cura.
Quando a cirurgia é indicada e o que melhora após o procedimento?
A cirurgia é indicada quando a produção de aldosterona ocorre em apenas uma das glândulas suprarrenais, cenário geralmente causado por um adenoma produtor de aldosterona. Os melhores resultados são observados em pacientes com produção hormonal claramente unilateral, tempo mais curto de hipertensão, menor número de medicamentos anti-hipertensivos, idade mais jovem e ausência de histórico familiar importante de hipertensão.
Após a cirurgia, a melhora é rápida e consistente em diferentes aspectos:
- Normalização do potássio: ocorre geralmente em 24 a 72 horas. A suplementação costuma ser suspensa ainda durante a internação.
- Redução da pressão arterial: começa logo após a cirurgia, com maior ajuste entre 2 e 4 semanas, e resultado final definido entre 3 e 12 meses. Cerca de 30% a 60% dos pacientes apresentam cura completa da hipertensão e mais de 90% apresentam melhora significativa com redução dos medicamentos.
- Redução dos medicamentos: muitos pacientes conseguem reduzir o número de medicamentos e alguns conseguem suspender completamente o tratamento anti-hipertensivo. Essa redução deve ser feita de forma orientada e progressiva.
- Redução do risco cardiovascular: o tratamento do hiperaldosteronismo reduz riscos de AVC, infarto, arritmias e doença renal, pois o excesso de aldosterona tem efeito direto sobre coração, vasos e rins.
A cirurgia não é apenas um tratamento: em muitos casos, é a oportunidade de corrigir a causa da hipertensão e reduzir de forma significativa o risco cardiovascular no longo prazo.
Quando o tratamento é clínico, não cirúrgico
Nem todos os pacientes com hiperaldosteronismo primário devem ser tratados com cirurgia. Quando o excesso de aldosterona ocorre em ambas as glândulas suprarrenais (hiperplasia adrenal bilateral), a cirurgia não é a primeira linha de tratamento. O tratamento é feito com medicamentos que bloqueiam o efeito da aldosterona no organismo, principalmente espironolactona e eplerenona, ajudando a controlar a pressão arterial e corrigir o potássio.
Mesmo em casos potencialmente cirúrgicos, a cirurgia pode não ser a melhor opção quando há condições clínicas que aumentam o risco cirúrgico, preferência do paciente após discussão detalhada ou dúvidas diagnósticas que exigem acompanhamento.
A escolha entre tratamento cirúrgico e clínico deve ser sempre individualizada, considerando resultados dos exames hormonais, definição de lateralidade, condições clínicas e expectativa de benefício com a cirurgia.
Como é a recuperação após a adrenalectomia?
A recuperação após a adrenalectomia robótica costuma ser rápida: alta hospitalar em 24 a 48 horas, retorno às atividades leves em poucos dias e trabalho administrativo em cerca de uma semana. Atividades físicas mais intensas são liberadas após 3 a 4 semanas.
Após o procedimento, é importante acompanhar níveis de potássio, pressão arterial e ajuste progressivo das medicações. Para informações detalhadas sobre o procedimento cirúrgico, acesse a página completa sobre adrenalectomia robótica.
Considerações finais
O hiperaldosteronismo primário é uma causa frequente e muitas vezes não reconhecida de hipertensão arterial. A grande diferença é que, ao contrário da maioria dos casos de pressão alta, essa condição pode ser tratada na origem e, em muitos pacientes, até curada.
O diagnóstico adequado, com avaliação hormonal e definição precisa se a doença é unilateral ou bilateral, é fundamental para indicar o tratamento correto. Quando a doença está restrita a uma única suprarrenal, a adrenalectomia robótica permite tratar a causa do problema com segurança, recuperação rápida e melhora significativa do controle da pressão arterial.
Se você tem hipertensão difícil de controlar, usa múltiplos medicamentos ou já recebeu esse diagnóstico, uma avaliação especializada pode identificar se existe uma causa tratável e definir a melhor estratégia para o seu caso.
Perguntas frequentes sobre hiperaldosteronismo primário
Hiperaldosteronismo tem cura?
Sim, em muitos casos. Quando a doença é causada por apenas uma adrenal (doença unilateral), a cirurgia pode levar à cura da hipertensão em 30% a 60% dos pacientes, e mais de 90% apresentam melhora significativa.
Como saber se minha pressão alta pode ser hiperaldosteronismo?
A suspeita deve ser considerada em pacientes com pressão difícil de controlar, necessidade de vários medicamentos, potássio baixo ou hipertensão em idade jovem. Nesses casos, exames hormonais específicos são indicados.
Todo paciente com hiperaldosteronismo precisa operar?
Não. A cirurgia é indicada apenas quando a produção de aldosterona é unilateral. Nos casos bilaterais, o tratamento é feito com medicamentos como espironolactona ou eplerenona.
Todo paciente com hiperaldosteronismo precisa operar?
Não. A cirurgia é indicada apenas quando a produção de aldosterona é unilateral. Nos casos bilaterais, o tratamento é feito com medicamentos como espironolactona ou eplerenona.
A cirurgia realmente melhora a pressão?
Sim. Cerca de 30% a 60% dos pacientes apresentam normalização completa da pressão, e mais de 90% apresentam melhora significativa com redução dos medicamentos.
O potássio volta ao normal após a cirurgia?
Sim. Na maioria dos casos, o potássio normaliza rapidamente, geralmente entre 24 e 72 horas após o procedimento.
Vou parar de tomar remédios para pressão?
Depende. Alguns pacientes conseguem suspender completamente os medicamentos, enquanto outros precisam manter doses menores. Isso varia conforme o tempo de doença e características individuais.
O que é o cateterismo de veias adrenais (AVS)?
É o exame mais preciso para definir se o excesso de aldosterona vem de uma ou das duas adrenais. Consiste na coleta de sangue diretamente das veias de cada adrenal para comparar a produção hormonal entre os dois lados. É considerado o padrão-ouro para a decisão cirúrgica.
Preciso fazer exames após a cirurgia?
Sim. O acompanhamento é essencial e inclui controle da pressão arterial, potássio e ajuste progressivo das medicações, especialmente nas primeiras semanas após o procedimento.
Texto elaborado pelo Dr. Eder Nisi Ilario, CRM-SP 150.653, RQE 66.503, urologista especializado em uro-oncologia e cirurgia robótica, formado e doutor em Urologia pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Revisto em maio de 2026.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a avaliação médica individual.




