Carcinoma de células renais: o que significam o subtipo, o grau ISUP e a biópsia?
Dr. Eder Nisi Ilario
Dr. Eder Nisi Ilario
Urologista
Uro-Oncologia • Cirurgia Robótica
CRM 150.653 | RQE 66.503
Formado pela Faculdade de Medicina da USP, o Dr. Eder Nisi Ilario é doutor em Urologia, atuando em uro-oncologia e cirurgia robótica. Dedica-se ao diagnóstico e tratamento dos cânceres de próstata, rim, bexiga e tumores da suprarrenal, incluindo casos de alta complexidade. Sua prática é baseada em avaliação individualizada, planejamento cirúrgico criterioso e acompanhamento especializado. É coordenador do fellowship em Uro-Oncologia e Cirurgia Robótica do IDOR.
| Entenda o que significa receber o diagnóstico de carcinoma de células renais, quais são os principais subtipos e como o grau ISUP ajuda a avaliar a agressividade do tumor. Saiba também o que a biópsia e o anatomopatológico realmente mostram e como essas informações ajudam a definir o prognóstico e o tratamento. |
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Introdução
Receber um resultado com a expressão “carcinoma de células renais” costuma gerar novas dúvidas depois da confirmação do câncer. O paciente passa a encontrar termos como células claras, papilífero, cromófobo, grau ISUP, diferenciação sarcomatoide ou necrose tumoral e quer entender o que cada informação representa.
Esses dados não são apenas detalhes técnicos do laudo. Eles ajudam a compreender que tipo de câncer renal está presente e quais características indicam maior ou menor agressividade biológica. Entretanto, nenhuma dessas informações deve ser interpretada isoladamente: tamanho, extensão da doença, linfonodos, presença de metástases e características do paciente continuam sendo fundamentais para estimar o prognóstico e definir o tratamento.
Quando o diagnóstico vem de uma biópsia, existe ainda outra questão importante: o fragmento analisado representa apenas uma pequena parte do tumor. A biópsia costuma ser bastante precisa para identificar malignidade e o subtipo histológico, mas pode ter limitações para definir com exatidão o grau e outras características presentes no tumor como um todo.
Principais informações sobre tipos de carcinoma de células renais
- Carcinoma de células renais é um câncer, mas existem diferentes subtipos da doença.
- Os três principais são carcinoma de células claras, papilífero e cromófobo.
- A classificação atual não divide mais o carcinoma papilífero simplesmente em tipos 1 e 2.
- O grau WHO/ISUP ajuda a estimar a agressividade microscópica do tumor, mas não é a mesma coisa que o estágio.
- O sistema WHO/ISUP é utilizado principalmente nos carcinomas de células claras e papilíferos e não deve ser aplicado ao carcinoma cromófobo.
- Diferenciação sarcomatoide ou rabdoide indica características de alto grau.
- A biópsia renal é muito precisa para confirmar malignidade e geralmente identifica corretamente o subtipo, mas pode subestimar o grau tumoral.
- O prognóstico não depende apenas do subtipo: estágio, grau e extensão da doença precisam ser analisados em conjunto.
O que significa carcinoma de células renais?
O carcinoma de células renais é o principal tipo de câncer que se desenvolve no tecido do próprio rim. O termo engloba diferentes tumores malignos que podem ter aparência microscópica, alterações moleculares e comportamento biológico distintos.
Um ponto importante é diferenciar carcinoma renal de massa ou nódulo renal. Carcinoma significa que houve confirmação de uma neoplasia maligna. Já o termo nódulo ou massa descreve apenas uma alteração encontrada nos exames de imagem e pode corresponder tanto a tumores malignos quanto a lesões benignas.
Por isso, encontrar um nódulo no rim não significa necessariamente ter carcinoma de células renais. Essa diferenciação é abordada em detalhes no conteúdo sobre nódulo no rim; aqui, o foco é entender o que significa quando o diagnóstico de carcinoma já foi estabelecido.
Quais são os principais tipos de carcinoma de células renais?
O carcinoma de células renais não é uma doença única. A classificação atual da Organização Mundial da Saúde reconhece diferentes entidades histológicas e moleculares, sendo três delas responsáveis pela maior parte dos casos: células claras, papilífero e cromófobo.
Tabela: subtipos de carcinoma de células renais
| Subtipo | Frequência | Característica geral |
|---|---|---|
| Células claras | Cerca de 70% | Mais comum; comportamento bastante variável |
| Papilífero | Cerca de 13 a 20% | Segundo subtipo mais frequente, biologicamente heterogêneo |
| Cromófobo | Menos frequente | Geralmente apresenta prognóstico favorável quando localizado |
| Outros subtipos | Raro | Incluem tumores com características histológicas ou moleculares específicas |
O nome do subtipo é importante, mas não permite sozinho prever a evolução da doença. Dois pacientes com carcinoma de células claras, por exemplo, podem ter prognósticos completamente diferentes dependendo do tamanho, estágio, grau e presença de outras características de agressividade.
Carcinoma de células claras é mais agressivo?
Não necessariamente. O carcinoma renal de células claras é o subtipo mais frequente, representando aproximadamente 70% dos carcinomas renais. Ele recebe esse nome pelo aspecto das células observadas ao microscópio e apresenta alterações envolvendo a via do gene VHL com grande frequência.
Seu comportamento, entretanto, é muito variável. Existem tumores pequenos, localizados e de baixo grau com excelente perspectiva de controle, assim como tumores de alto grau ou em estágios mais avançados.
Por isso, receber o diagnóstico de “carcinoma de células claras” não significa automaticamente que o câncer seja agressivo. Para estimar o risco individual, precisamos saber também o grau WHO/ISUP, o estágio e outras características do anatomopatológico.
O que significa carcinoma papilífero?
O carcinoma papilífero é o segundo subtipo mais frequente de carcinoma renal. Durante muitos anos, esses tumores foram classificados como papilífero tipo 1 ou tipo 2, mas essa divisão não é mais recomendada pela classificação atual da Organização Mundial da Saúde.
Isso aconteceu porque os tumores anteriormente agrupados como “tipo 2” mostraram grande diversidade. Com o avanço da patologia molecular, algumas dessas lesões passaram a ser reconhecidas como doenças específicas, como o carcinoma renal deficiente em fumarato hidratase (FH) e outros tumores definidos por alterações moleculares.
Portanto, diante de um laudo de carcinoma papilífero, mais importante do que tentar classificá-lo pela antiga divisão entre tipos 1 e 2 é analisar grau, estágio, características morfológicas e, em situações selecionadas, alterações moleculares específicas.
O que significa carcinoma cromófobo?
O carcinoma cromófobo é outro subtipo de câncer renal e apresenta características microscópicas diferentes dos carcinomas de células claras e papilíferos.
Quando localizado e completamente removido, costuma apresentar prognóstico bastante favorável, embora existam formas mais agressivas, principalmente quando há necrose tumoral, diferenciação sarcomatoide ou doença em estágio avançado.
Existe também uma particularidade importante na interpretação do laudo: o carcinoma cromófobo apresenta naturalmente alterações nucleares que tornam inadequada a aplicação do sistema WHO/ISUP. Por isso, diferentemente dos carcinomas de células claras e papilíferos, não é recomendado classificar o carcinoma cromófobo como ISUP 1, 2, 3 ou 4
Existem outros tipos de carcinoma renal?
Sim. Existem vários tumores renais mais raros, e a classificação atual reconhece inclusive carcinomas definidos por alterações moleculares específicas.
Entre eles estão carcinoma dos ductos coletores, carcinoma renal com rearranjo de TFE3, tumores alterados em TFEB, carcinoma deficiente em FH, carcinoma deficiente em SDH, tumores com rearranjo de ALK e carcinoma medular renal deficiente em SMARCB1, entre outras entidades.
Para o paciente, o mais importante não é memorizar essa classificação. O ponto relevante é que, diante de uma histologia incomum, identificar corretamente o tipo do tumor pode ter implicações prognósticas, genéticas e terapêuticas, justificando em alguns casos revisão anatomopatológica especializada, imuno-histoquímica ou investigação molecular.
Como o patologista identifica o tipo de carcinoma renal?
O diagnóstico é feito pela análise do tecido tumoral obtido na biópsia renal ou na peça retirada durante a cirurgia.
O patologista avalia a arquitetura do tumor, a aparência das células e dos núcleos e outras características microscópicas. Nos casos em que apenas a morfologia não é suficiente, podem ser utilizados exames de imuno-histoquímica, que identificam proteínas específicas nas células, e, em situações selecionadas, testes moleculares.
A classificação da OMS de 2022 passou a incorporar de forma mais ampla essas características moleculares à classificação dos tumores renais.
O que é o grau WHO/ISUP e por que ele é importante?
Depois de identificar o subtipo, outra informação importante é o grau WHO/ISUP. Ele descreve características microscópicas relacionadas ao grau de diferenciação e agressividade do tumor.
O sistema varia de 1 a 4 e é utilizado principalmente nos carcinomas de células claras e papilíferos. Quanto maior o grau, maior tende a ser o potencial de comportamento agressivo.
Tabela: Grau WHO/ISUP
| Grau WHO / ISUP | Interpretação geral |
|---|---|
| ISUP 1 | Características microscópicas de baixo graue 70% |
| ISUP 2 | Baixo/intermediário grau, muito frequente em tumores localizados |
| ISUP 3 | Alterações nucleares mais pronunciadas, associadas a maior risco |
| ISUP 4 | Alto grau, incluindo pleomorfismo nuclear extremo e/ou diferenciação sarcomatoide ou rabdoide |
Os graus 1 a 3 são definidos principalmente pela proeminência dos nucléolos observados pelo patologista. O grau 4 corresponde a alterações de alto grau, incluindo pleomorfismo nuclear extremo e diferenciação sarcomatoide ou rabdoide.
O grau é um importante fator prognóstico, mas não deve ser analisado sozinho. Um tumor pequeno ISUP 3 restrito ao rim representa uma situação diferente de um tumor ISUP 3 com invasão vascular ou metástases.
Grau ISUP é a mesma coisa que estágio do câncer?
Não. Essa diferença é fundamental para interpretar corretamente o laudo.
O grau WHO/ISUP avalia como as células do tumor se apresentam ao microscópio e fornece informações sobre sua agressividade biológica. Já o estágio descreve onde a doença está: tamanho e extensão do tumor no rim, invasão de estruturas próximas, comprometimento de linfonodos e presença ou ausência de metástases.
Portanto, um carcinoma ISUP 3 ou 4 não significa automaticamente que existam metástases. Da mesma forma, um tumor de grau mais baixo pode apresentar extensão local importante dependendo de sua evolução.
Na prática, o prognóstico surge da combinação do subtipo, grau, estágio, características específicas do anatomopatológico e não de uma palavra isolada no laudo.
O que significam diferenciação sarcomatoide e rabdoide?
Esses termos costumam preocupar quando aparecem no anatomopatológico porque estão associados a características de maior agressividade tumoral.
A diferenciação sarcomatoide não é um subtipo separado de câncer renal. Trata-se de uma alteração de alto grau que pode surgir em diferentes tipos de carcinoma renal. O mesmo princípio se aplica à diferenciação rabdoide. Quando essas características estão presentes, o tumor é considerado WHO/ISUP grau 4 nos subtipos em que esse sistema de graduação é aplicável.
Sua presença indica maior risco oncológico, mas não significa, isoladamente, que o câncer já tenha produzido metástases. O impacto sobre o tratamento depende também do estágio, da extensão da doença e das demais características do paciente.
O que a biópsia renal consegue mostrar?
A biópsia renal percutânea retira pequenos fragmentos da lesão por meio de uma agulha guiada por ultrassom ou tomografia. Seu principal objetivo é obter tecido suficiente para definir a natureza do tumor antes de um tratamento.
Quando a amostra é adequada, a biópsia apresenta excelente desempenho para diferenciar tumores malignos de benignos. Em centros experientes, a sensibilidade e a especificidade para malignidade são muito elevadas, e a concordância entre o subtipo identificado na biópsia e aquele encontrado posteriormente na peça cirúrgica fica em torno de 90%.
Além de confirmar um carcinoma renal, a biópsia pode informar o subtipo histológico, estimar o grau quando aplicável e identificar características adicionais que ajudam no planejamento do tratamento.
A biópsia consegue definir com certeza o grau do tumor?
Não. Essa é uma limitação importante da biópsia renal e precisa ser explicada ao paciente.
A biópsia analisa apenas alguns fragmentos de um tumor que pode apresentar áreas diferentes entre si. Por isso, enquanto a identificação do subtipo costuma ter boa concordância com a peça cirúrgica, a determinação exata do grau é mais difícil.
Na análise utilizada pelas diretrizes europeias, a concordância do grau foi de aproximadamente 62,5%, aumentando para cerca de 87% quando os tumores foram agrupados simplesmente em baixo e alto grau.
Isso significa que um resultado ISUP 2 na biópsia não deve ser interpretado como uma garantia de que todo o tumor seja grau 2. A peça cirúrgica permite examinar uma quantidade muito maior de tecido e pode revelar áreas de grau mais elevado, necrose ou outras características que não estavam presentes nos fragmentos coletados.
Todo tumor renal precisa de biópsia?
Não. A indicação da biópsia depende principalmente de como o resultado pode modificar a conduta.
Ela pode ser particularmente útil quando existe dúvida sobre a natureza da lesão, antes de terapias ablativas, em pacientes selecionados candidatos à vigilância ativa ou quando é necessário confirmar o diagnóstico histológico antes de iniciar tratamento sistêmico.
Por outro lado, quando os exames mostram uma massa renal suspeita e o paciente já possui indicação cirúrgica independentemente do resultado da biópsia, ela pode não ser necessária. Nessa situação, o exame anatomopatológico da peça cirúrgica fornecerá informações mais completas sobre o tumor.
Como interpretar o resultado da biópsia ou do anatomopatológico?
Um laudo de carcinoma renal reúne informações diferentes, e cada uma responde a uma pergunta específica:
| Informação no laudo | O que ela ajuda a responder |
|---|---|
| Diagnóstico histológico | Qual é o tipo de tumor |
| WHO/ISUP | Qual o grau microscópico de agressividade, quando aplicável |
| Sarcomatoide/rabdoide | Se existem características de alto grau |
| Necrose tumoral | Informação adicional relacionada ao comportamento do tumor |
| Imuno-histoquímica | Ajuda a confirmar o diagnóstico em casos selecionados |
| Margens cirúrgicas | Se o tumor alcança a margem da peça removida |
| Estágio patológico (pT/pN) | Qual é a extensão anatômica identificada após a cirurgia |
Subtipo, grau, necrose e características sarcomatoides são reconhecidos como fatores histológicos relevantes para avaliação prognóstica.
Por exemplo, diante de uma biópsia descrita como “carcinoma renal de células claras, WHO/ISUP 2”, podemos concluir que a amostra confirmou o subtipo mais frequente e não mostrou características de alto grau nos fragmentos analisados.
Não podemos, porém, interpretar esse resultado isoladamente como definição completa do prognóstico. Ainda precisamos considerar imagem, tamanho, extensão da doença e as limitações próprias da amostragem da biópsia.
O subtipo do carcinoma renal muda o prognóstico?
Pode influenciar, mas não determina sozinho as chances de cura.
Existem diferenças de comportamento entre os diversos subtipos. O carcinoma cromófobo, por exemplo, costuma apresentar prognóstico bastante favorável quando localizado, enquanto alguns tumores raros apresentam comportamento mais agressivo. Entretanto, quando os diferentes subtipos são comparados considerando o estágio da doença, parte dessa diferença prognóstica diminui.
Na prática, o estágio continua sendo uma das informações mais importantes para estimar o prognóstico. O subtipo, o grau, a presença de necrose, diferenciação sarcomatoide e outras características complementam essa avaliação.
Por isso, não é adequado concluir que determinado câncer renal é “bom” ou “ruim” apenas pelo nome do subtipo.
O subtipo histológico muda o tratamento?
Em alguns cenários, sim.
Nos tumores localizados, a definição entre preservar parte do rim, retirar o órgão ou considerar outras estratégias depende principalmente do tamanho, localização, extensão do tumor, função renal e condições clínicas do paciente. O subtipo histológico é mais uma informação dentro dessa análise.
Já na doença avançada, conhecer com precisão o subtipo se torna particularmente importante, porque carcinomas de células claras e carcinomas não células claras não apresentam necessariamente a mesma biologia nem respondem da mesma forma aos tratamentos sistêmicos.
O detalhamento de imunoterapia, terapias-alvo e tratamento após a cirurgia pertence a outro momento da jornada e é discutido separadamente no conteúdo sobre tratamento sistêmico no câncer de rim (link interno), evitando transformar a interpretação do laudo em uma discussão extensa sobre terapias.
Como avaliamos o resultado do carcinoma renal na prática?
Quando um paciente recebe o diagnóstico de carcinoma de células renais, o resultado da biópsia ou do anatomopatológico precisa ser interpretado junto aos exames de imagem e às características clínicas. Na prática, organizamos essa avaliação em etapas:
Passo 1: Confirmar qual é o tipo de tumor
O primeiro passo é entender exatamente qual carcinoma renal foi identificado. Avaliamos se o tumor é de células claras, papilífero, cromófobo ou um subtipo menos frequente.
Nos tumores com características incomuns ou quando existe dúvida diagnóstica, pode ser importante revisar o material com patologista especializado e, em situações selecionadas, complementar a investigação com imuno-histoquímica ou testes moleculares.
Passo 2: Avaliar o grau de agressividade
Em seguida, analisamos as características microscópicas relacionadas ao comportamento do tumor. Nos carcinomas de células claras e papilíferos, o grau WHO/ISUP ajuda a estimar essa agressividade.
Também observamos a presença de fatores como diferenciação sarcomatoide ou rabdoide e necrose tumoral, que podem indicar maior risco oncológico.
Quando o resultado vem de uma biópsia, é importante lembrar que apenas uma parte do tumor foi analisada e que o grau definitivo pode ser melhor caracterizado após a cirurgia.
Passo 3: Definir a extensão da doença
O próximo passo é integrar o anatomopatológico aos exames de imagem para determinar onde a doença está.
Avaliamos o tamanho e a localização do tumor, possível extensão para estruturas próximas, comprometimento de vasos, linfonodos e presença ou ausência de metástases. Essa etapa define o estágio da doença e tem papel fundamental na estimativa do prognóstico.
Passo 4: Integrar subtipo, grau e estágio
Nenhuma dessas informações deve ser interpretada isoladamente. Um tumor de grau mais elevado ainda pode estar completamente localizado no rim, enquanto tumores do mesmo subtipo podem apresentar comportamentos muito diferentes dependendo do estágio.
Por isso, combinamos subtipo histológico, grau, estágio e demais características do tumor para estimar de forma mais precisa o risco individual de cada paciente.
Passo 5: Definir a estratégia de tratamento
Somente depois dessa avaliação completa definimos a melhor conduta. Dependendo do cenário, pode ser indicado tratamento cirúrgico, acompanhamento ou, em doenças mais avançadas, uma estratégia que envolva tratamento sistêmico.
O objetivo é evitar decisões baseadas em uma única palavra do laudo e utilizar todas as informações disponíveis para escolher a estratégia mais adequada para aquele tumor e para aquele paciente.
Considerações finais
O diagnóstico de carcinoma de células renais vai muito além de confirmar a presença de câncer. Saber qual é o subtipo, qual o grau de agressividade e qual a extensão da doença permite compreender melhor o comportamento esperado do tumor e planejar os próximos passos com maior precisão.
A biópsia pode fornecer informações importantes antes do tratamento, mas possui limitações porque representa apenas uma parte da lesão. Quando existe uma peça cirúrgica, o anatomopatológico permite uma avaliação mais completa do tumor e acrescenta informações fundamentais para estimar o risco de recorrência.
Termos como células claras, papilífero, cromófobo ou ISUP 3 não devem, portanto, ser interpretados isoladamente como sinônimo de doença mais ou menos grave. É a integração entre anatomopatológico, estágio e características individuais do paciente que permite entender o significado real daquele diagnóstico e definir a estratégia mais adequada.
Referências científicas
- European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Renal Cell Carcinoma. Atualização 2026. Seções de patologia, diagnóstico, fatores prognósticos e câncer renal hereditário.
- WHO Classification of Tumours Editorial Board. WHO Classification of Urinary and Male Genital Tumours. 5ª edição. 2022.
- Lobo J, et al. WHO 2022 landscape of papillary and chromophobe renal cell carcinoma. Revisão da nova classificação e abandono da subdivisão papilífero tipo 1/tipo 2.
- Delahunt B, et al. The International Society of Urological Pathology (ISUP) Grading System for Renal Cell Carcinoma and Other Prognostic Parameters. American Journal of Surgical Pathology. 2013.
Perguntas frequentes sobre tipos de carcinoma de células renais
Carcinoma de células renais tem cura?
Sim. Quando o tumor está localizado e pode ser tratado adequadamente, muitos pacientes apresentam elevada possibilidade de controle definitivo da doença. As chances individuais dependem principalmente do estágio, mas também do grau e de outras características do tumor. Por isso, não é possível estimar a possibilidade de cura apenas pelo subtipo descrito no laudo.
Carcinoma renal de células claras é o mais agressivo?
Não necessariamente. Células claras é principalmente o subtipo mais comum de carcinoma renal. Seu comportamento pode variar desde tumores pequenos e de baixo risco até doenças bastante agressivas. Grau WHO/ISUP, estágio, necrose e diferenciação sarcomatoide ajudam a avaliar melhor o risco do que o nome “células claras” isoladamente.
Carcinoma renal ISUP 2 é grave?
ISUP 2 indica que o tumor não apresenta, no material analisado, características microscópicas de alto grau. Isso geralmente é mais favorável do que ISUP 3 ou 4, mas não define sozinho o prognóstico. É necessário considerar tamanho, estágio e demais características. Quando o ISUP vem de uma biópsia, existe ainda possibilidade de heterogeneidade dentro do tumor.
ISUP 3 ou 4 significa que o câncer já tem metástase?
Não. O grau WHO/ISUP avalia características microscópicas relacionadas à agressividade; metástase faz parte do estágio da doença. Um carcinoma de alto grau pode ainda estar restrito ao rim. Por outro lado, graus mais elevados estão associados a maior risco oncológico e devem ser considerados junto aos exames de estadiamento.
A biópsia renal pode errar o grau do câncer?
Pode haver diferença entre o grau encontrado na biópsia e aquele identificado posteriormente na peça cirúrgica. Isso ocorre porque a agulha coleta apenas pequenas regiões de um tumor que pode ser heterogêneo. A biópsia costuma identificar muito bem malignidade e subtipo, mas possui menor precisão para determinar o grau exato.
A biópsia renal pode espalhar o câncer?
A disseminação tumoral pelo trajeto da agulha é considerada uma complicação muito rara com as técnicas atuais. A biópsia percutânea apresenta baixa morbidade quando corretamente indicada e realizada com técnica adequada. A decisão de fazê-la depende principalmente de saber se o resultado poderá modificar o tratamento daquele paciente.
Todo carcinoma de células renais precisa de biópsia antes da cirurgia?
Não. Quando a imagem já mostra uma massa suspeita e a cirurgia será indicada independentemente do resultado, a biópsia pode não acrescentar informação capaz de modificar a conduta. Ela é particularmente útil quando existe dúvida diagnóstica, antes de terapias ablativas, na vigilância ativa ou quando é necessário confirmar a histologia antes de tratamento sistêmico.
Carcinoma de células renais pode ser hereditário?
Na maioria das vezes, não. Aproximadamente 5% a 8% dos carcinomas renais estão associados a síndromes hereditárias. A suspeita aumenta diante de diagnóstico em idade jovem, múltiplos tumores, acometimento dos dois rins ou histórico familiar. As diretrizes europeias recomendam considerar investigação genética especialmente nesses cenários e oferecem teste germinativo a pacientes com menos de 46 anos.
Texto elaborado pelo Dr. Eder Nisi Ilario, CRM-SP 150.653, RQE 66.503, urologista especializado em uro-oncologia e cirurgia robótica, formado e doutor em Urologia pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Revisto em setembro de 2026.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Não substitui a avaliação médica individual.




